quinta-feira, junho 09, 2005

Organização da competição

Vou entrar no debate em forma de nota /teses muitas vezes sem me referir a algum dos colegas em concreto mas a questões entretanto afloradas:
- Refiro-me no que digo essencialmente à prática desportiva de jogos colectivos. Reconheço haver diferenças substanciais se falasse de alguns desportos individuais, tipo ginástica ou natação. Quando falo num desporto escolar falo essencialmente de basquetebol pois é o desporto em que tenho mais experiência de formação.
- Continuo a pensar que é preciso fazer definições prévias. Desporto infantil (DI) para mim é aquele praticado por crianças antes da puberdade, em idades (cerca dos 8 a 11) que lhes permitem aceder a práticas ditas desportivas relacionadas com as formais). As características destas idades marcam substancial diferença na constituição física psíquica e social em relação aos púberes ou adolescentes - estes enquadrados no Desporto Juvenil. O Desporto de formação englobaria o desporto infantil e o juvenil, antes da entrada no desporto adulto que pode adoptar as formas de baixa, média ou alta competição em função do nível de prática dos seus praticantes ou formas de recreação. Antes do desporto infantil penso haver lugar a uma formação orientada de EF base em que o desporto como o conhecemos não cabe ainda, o que devem existir são jogos e a formação lúdico-motora.
- Os contextos de prática do desporto infantil podem ser diferentes, escola ou clube, associação, autarquia, mas devem ter objectivos e formas de actuação etc. iguais. De preferência o desporto infantil deveria ser feito em contexto escolar sob a orientação de professores de EF devidamente formados. O contexto clubístico é possível mas traz mais possibilidades de desvirtuação das práticas formativas a este nível. Mas quando inexiste o escolar, o clubístico ou associativo ou municipal são possibilidades a não descartar.
- Aquilo a que chamam infantis B (actualmente nascidos em 92 e 93) no desporto escolar mistura escolares pré e pós púberes o que lhe dá deste ponto de vista uma grande necessidade de diferenciação pedagógica das práticas. Os considerados Infantis B (nascidos em 94 e 95) correspondem mais verdadeiramente ao desporto infantil pois os seus praticantes estão todos numa fase claramente pré-púbere. No desporto federado há um desfasamento de designações e de idades. Salvo erro chamam iniciados no Basquetebol aos nascidos entre 91 e 92. E minibasquete aos nascidos de 93 para baixo. Dantes, não sei se agora assim se passa, diferenciava-se entre o Mini A (dos 7/8 aos 10 e o Mini B dos 11 aos 12). A prática do minibasquete era possivelmente mista embora a maioria das equipas fossem de rapazes ou de raparigas.
- Sem querer apontar idades fixas mas meras referências, dentro do DI, eu faria as seguintes divisões gerais: Fase de prática multilateral de um conjunto de desportos (8 a 10 anos), iniciação em 1 desporto (por exemplo basquete) entre os 11 e os 12 anos, sensivelmente antes da puberdade começar. Depois disso já se entraria no início do desporto juvenil, fase de orientação-aperfeiçoamento no desporto escolhido.
- É claro que eu estou a ser esquemático, e a ter em conta principalmente o factor idade no que ele muitas vezes traduz de mudanças físicas, psíquicas, sociais. Mas rapazes ou raparigas em idades iguais estão em estádios de desenvolvimento bastante diferente e o que deve ser tido em conta são estes e não a idade cronológica. Todas as considerações que a Rita fez em cima do meu esquematismo são interessantes e partilho-as. Estão a um nível de análise do concreto diferente do meu.
- Até à ultrapassagem da puberdade as competições do desporto infantil deveriam ser mistas. A partir daí penso que as competições deveriam ser separadas. É evidente que há uma fase charneira em que em média as raparigas atingem a puberdade e o s rapazes ainda são pré-púberes que é preciso considerar. Independentemente disto penso haver todo o interesse em haver intercâmbios. Quando treinei raparigas gostava muitas vezes de treinar ou efectuar jogos treinos com rapazes, mas a competição deveria ser diferenciada a partir dessa idade. O mesmo também pode acontecer ao contrário. Treinos ou jogos treinos entre equipas fracas de rapazes e fortes de raparigas ou o contrário são de estimular e muito interessantes principalmente possíveis quando na mesma instituição há rapazes e raparigas a praticar a mesma modalidade. Treinos conjuntos ou mistos são também possibilidades interessantes. Agora de todo, é importante a equidade competitiva quando se colocam a defrontar equipas. Um jogador aprende pouco quando não encontra oposição equitativa ou ligeiramente diferente. É um cuidado a ter particularmente em conta. Dantes no minibasquete juntavam-se todas as equipas num encontro festa inicial onde se aquilatavam da valia das equipas para se proceder à divisão por séries equilibradas, não sei se agora se faz isso. Por outro lado nestas idades infantis e não só, há outras formas de equilibrar as coisas e desmistificar a competição, fazendo misturar as equipas, contrariando o clubismo ou equipismo, ou campeonite e fazendo jogar relacionar os jogadores de várias equipas. A fórmula de Festa do minibasquete, com múltiplas actividades de carácter técnico culminando com jogos de equipas todas misturadas é para mim o ideal. Os jamboris que aliam ao anterior vivências múltiplas de carácter social, cultural e artístico ao desportivo são momentos culminantes do desporto infantil que todos os desportistas infantis (e não só deveriam desfrutar). A existência de prémios que devem ser iguais para todos independentemente das classificações podem e deve diferenciar só em certos casos, que não constituem discriminações mas valorizações positivas: o jogador Fair-Play; o jogador mais esforçado; etc., prémios esses, simbólicos que muitas vezes descoincidem dos jogadores com mais sucesso meramente competitivo. A existência de muitas séries proporciona muitos vencedores. Esqueçam os faseamentos até chegar ao supra vencedor. O importante é jogar muito e fazer desfrutar o jogo e conviver e melhorar no jogo. A atitude de orientação dos treinadores nos jogos (e nos treinos) deve ser cuidadosa e aqui há muito a fazer. Nada de muitos gritos, mas apoio informativo sereno e formativo. Apesar de muito jovens, as crianças podem e devem participar muito activamente na organização, dos treinos e competições. Devem-lhes ser atribuídas rotativamente responsabilidades que estejam ao seu alcance.
- A formação das crianças em formação, infantis neste caso deve estar a cargo de pessoas devidamente formadas. Admito a presença de monitores jovens, que não sejam professores de EF, se devidamente enquadrados por professores de EF devidamente formados, que cuidarão do planeamento, supervisão e acompanhamento dos treinos e jogos. Não me parece que isto esteja a acontecer muito no desporto infantil. Todo o aspirante a monitor ou treinador deve passar por formação e indução e acompanhamento por um treinador experiente. O que me parece acontecer, principalmente no Desporto infantil em contextos federados é darem a responsabilidade a jovens jogadores muito novos, sem formação e não apoiados.
- Quando há competição, isto é, oposição entre equipas diferentes, os modelos devem ser altamente cuidados na sua organização e preparação. Vários artigos do Mestre (com M enorme) Teotónio Lima são pérolas no que concerne aos cuidados a ter na organização das competições infantis e juvenis e nos contextos da iniciação desportiva. Os colegas mais novos deveriam, caso não conheçam, ler as ideias expressas por este e outros velhinhos do nosso desporto (cito também o Hermínio Barreto, uma sumidade na pedagogia do basquete em idades formativas.) Também aqui, há claramente contextos competitivos que propiciam a campeonite e outros que propiciam a formação, o fair play.
- A possibilidade de discriminação existente no DI fica extremamente atenuada com certas medidas administrativas, tais como, obrigatoriedade de todos os jogadores jogarem iguais períodos de jogo. Indo mais além da dita regra de ouro,, isto é dos quatro períodos jogar nos três primeiros um mínimo de um e um máximo de dois o que permite que haja jogadores que jogam 3 períodos e outros apenas um. Esta regra iria ter repercussões na atitude formal dos treinadores. Os treinadores e principalmente os mais jovens, tendem a reproduzir mais certos contextos que vivem ou viveram. A capacidade de aceitar a vitória ou a derrota é menor nestes colegas em fase de afirmação que passa segundo eles pela vitória mesmo que a custo de alguns valores formativos. Mas há várias soluções para isto, administrativas, formativas, culturais etc., que apontei durante este texto.
- O desporto infantil tanto pode ser muito enriquecedor e formativo, como pode ser frustrante e deformativo. Os fenómenos de abandono desportivo são preocupantes e apontam erros crassos a ter em devida conta.
- Embora gostasse de dizer mais coisas, fico-me para já por aqui neste espaço interessante de debate promovido pelo Prof. Amândio.
Um abraço.


Henrique Santos

2 comentários:

Ana Rita Gomes disse...

A questão colocada relativamente à questão da participação das crs/jovens na competição tem muito que se lhe diga...
Agradeço à Cláudia o comentário à minha intervenção. Se é um facto que pretendo sempre transmitir muito entusiasmo, optimismo, convicção e sentido de responsabilidade, é por esse mesmo motivo que para o ano não vou trabalhar no desporto infanto-juvenil federado.
As crs/jovens precisam de sentir esse entusiasmo, optimismo, convicção e sentido de responsabilidade. Nos últimos anos tem sido muito difícil, para mim, conseguir transpirar isso de forma espontânea.
Tenho feito um grande esforço - porque vivo intensamente o treino, a competição, as relações interpessoais, a formação de pessoas e atletas - para conseguir manter prazer, optimismo e competência naquilo que faço.
Sou treinadora há 10 anos e sempre trabalhei com escalões de formação. Mesmo no ano que estive com uma equipa sénior, não perdi o vínculo à formação. Estou sempre com o minivoleibol e com um outro escalão de formação. Só este facto, exige um empenho e uma dedicação redobrados.
A experiência vai-nos ajudando a perceber que, muitas das vezes, aquilo que era convicção passa rapidamente a descrédito. Apesar de existirem princípios que nunca deixarão de ser válidos para o treino (incluo no treino a competição) de crs/jovens, há muitos outros que poderão variar de acordo com o contexto e a pessoa.
Em relação ao tempo à participação na competição, cheguei, no minivoleibol, a ter que formar 3 equipas para competir. Após o regional, só uma poderia passar ao nacional, as outras ficariam noutra competição. Nunca concordei muito com este sistema de competição neste escalão, mas tinha que optar quem iria jogar um ou outro torneio. Todas jogavam, mas no nacional havia equilíbrio na competição, sentia que as atletas sentiam gozo. No outro torneio não, as atletas não sentiam prazer na vitória porque era muito fácil e não as podia deixar jogar no outro porque só 8 (das 30 atletas que tinha) podiam participar no nacional e não podia haver trocas. Este facto era contornável com alguns torneios que organizava no pavilhão e na praia e as coisas foram andando. Mas ficam sempre frustrações e prejuízos na formação porque algumas foram privadas de uma estimulação provavelmente importante para o seu desenvolvimento.
Após o minivoleibol, nos dois anos seguintes - infantis e iniciados - o regulamento exige que, pelo menos 10 atletas (das 12 convocadas) joguem. Este aspecto, faz com que todas as atletas consigam ter um tempo de jogo razoável. Com 16 atletas (ou mais, como eu costumo ter - das 30 há uma selecção... e as outras? Quantas se perdem já aqui?) não é fácil gerir, mas cheguei com as 16 ao escalão de juvenis (ou cadetes), 4 das quais ainda com idade de iniciadas.
Nestes escalões, no DE, também não é fácil dar muito tempo de jogo porque os jogos não são tantos quanto isso e se se não se ficar apurado, a competição termina. Com 30 alunas a participar no DE, só 12 de cada vez podem ir jogar fora (é do regulamento e não há dinheiro para mais transporte e alimentação). Mesmo trocando as atletas, sobra pouco tempo de jogo para cada uma. Isto resolve-se fazendo torneio intra e inter-escola. Resulta, é fantástico ver e sentir o prazer das crianças, envolvê-las neste meio fantástico que é o desporto (seja qual for a posição que ocupa), mas nem sempre há energia para o fazer. Nem sempre reina esse tal entusiasmo, o optimismo, a convicção e o sentido de responsabilidade... é muito, muito trabalho (com prazer, é verdade, mas muito exigente e desgastante).
Em juvenis, no federado, tudo muda. Já se podem fazer substituições, jogam 6 efectivas e não é obrigatório jogar 10, etc. Nós, treinadores, repartimos o tempo de jogo de forma diferenciada pelas várias atletas, tendo em conta inúmeros factores relativos às atletas, equipa e clube. São inúmeras as variáveis que pesam neste processo. Há que ter sensibilidade para as gerir, sentir e expor.
Logo de início, gosto de envolver os pais no processo, faço muitas reuniões, procuro esclarecer muitos aspectos relativos à formação pessoal e desportiva da filha. É interessante cruzar os objectivos do pai, da mãe, da filha, da treinadora e do clube. São 16 atletas, é só fazer as contas. De facto, são inúmeros os objectivos e, apesar de às vezes ser possível arranjar um consenso, são sempre muitas variáveis para uma só pessoa conseguir gerir. Teria que ser uma profissão a tempo inteiro e com partilha de funções.
Uma outra experiência que tive - criação de uma escola de voleibol de praia - mostrou-me que afinal parece ser fácil trabalhar no desporto juvenil. Todos participavam, a jogar e a arbitrar, não havia restrição de horários escolares, não havia eliminatórias de uma competição para a outra. E aprenderam muito enquanto pessoas e atletas.
Neste momento, este projecto está em "banho-maria" porque a federação pretende formar uma selecção de sub-17 em voleibol de praia na qual estou envolvida. Em vez de 40 atletas, estão 5 (todas formadas nessa escola)... em vez de treinarem e jogarem diariamente, vão ter uma ou outra concentração em dois fins-de-semana e participarão numa só competição...
Afinal não é só o optimismo que me caracteriza...tenho consciência que ainda há muita pedra a quebrar no que diz respeito ao treino de jovens.
É verdade que, às vezes, sinto que podia dar muito mais às atletas e que me escapam aspectos que poderão acabar por afectar o desenvolvimento harmonioso das atletas. Mas, o retorno que obtenho - quer das atletas (pessoal e desportivamente), quer das pessoas que estão directamente envolvidas com o meu trabalho - tem sido muito bom e faz-me crer que vale a pena continuar a investir num conhecimento cada vez mais abrangente e profundo nesta área.
Estou cansada, é verdade... Em tão poucos anos, desgastei-me imenso. Preciso de parar e aproveitar para olhar e apreciar esta maravilha (desporto infanto-juvenil) do lado de fora.
Quando o entusiasmo, o optimismo, a convicção e o sentido de responsabilidade regressarem de forma intensa e espontânea (como a de uma criança a brincar), voltarei, com certeza, ao meu lugar - no treino de crs/jovens.
Um grande abraço.
Ana Rita Gomes

Henrique Santos disse...

Está bem que na entrada deste tópico me limitei a reproduzir ideias de "velhinhos mestres" como Esteves, Mário Lemos, Teotónio, Hermínio, e perdoem-me todos os outros que esqueci.
Mas os Novos Mestres ainda não inventaram nada de novo sob o sol acerca da forma de organizar uma competição desportiva com alcance formativo no desporto infantil? Com certeza que sim? Digam lá, por favor.
Henrique Santos